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Olhar para os animais e as plantas me enchia de alegria

20 de outubro de 2010

‘Olhar para os animais e as plantas me enchia de alegria.

Eu queria cuidar deles como quem cuida de algo frágil e precioso.

Aí o mandamento cristão do amor me parecia pouco exigente. Pedia apenas amor ao próximo.

Os cristãos entenderam que esse ‘próximo’ se referia apenas às pessoas.

Eu, ao contrário, penso que todas as coisas que vivem são minhas irmãs.

Elas possuem uma alma.(…) Amarás à mais insignificante das criaturas como a ti mesmo.

Quem não fizer isso jamais verá a Deus face a face.(…)

Agora digam: acham que eu poderia me alimentar da carne de um animal que

foi morto e sentiu a dor lancinante da faca, para que eu vivesse?

Que alegria poderia eu ter em tamanha crueldade? A natureza foi generosa o bastante,

dando-nos frutas, verduras, legumes, cereais. Por mais que tentem me convencer de que

as maneiras ocidentais são as melhores para a saúde, sempre as encarei com horror.

Antes morrer que matar. Em nenhuma hipótese causar medo ou dor a coisa alguma.(…)

Nosso destino espiritual passa por nossos hábitos alimentares.

Estou convencido de que a saúde depende de uma condição

interior de harmonia com tudo o que nos cerca.

Comer demais é uma transgressão dessa harmonia.(…) Quando nos abstemos estamos

silenciosamente dizendo às coisas vivas: ‘Podem ficar tranqüilas. Não as farei sofrer desnecessariamente.

Só tomarei para mim o mínimo necessário para que meu corpo viva bem. Foi o que fiz. Vivi frugalmente.

Fiz jejuns enormes. E minha saúde foi sempre boa.(…) Toda vida é sagrada, porque tudo o que

vive participa de Deus. E se até mesmo o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico,

é um pulsar da divindade, não teríamos nós, com muito mais razão,

de ter respeito igual pelos nossos inimigos?(…)

Sempre acreditei que no fundo dos homens existe algo de bom. Como poderia

eu odiar qualquer pessoa, mesmo os que me tinham por inimigo? Dirão que não é assim. Há crueldade,

o ódio, a morte… Será que algumas gotas de água suja serão capazes de poluir o oceano inteiro?

Que força do mal poderá apagar o divino que mora em nós?(… ) Parece que os ocidentais

não acreditam que os homens sejam naturalmente bons e belos. É por isso que

se tornaram especialistas em meios de coerção e sabem usar o dinheiro e os fuzis como

ninguém mais… É por isso que estão sempre tentando melhorar os homens por meio

de adições: a comida em excesso, a roupa desnecessária, a velocidade

da máquina, a complicação da vida…

‘Eu nunca quis entender de política. Só quis entender da bondade e dos seus caminhos.

A política foi uma conseqüência e não a inspiração… Eu teria feito as mesmas coisas,

ainda que não houvesse conseqüência alguma.(…) Os políticos, acostumados a

usar o poder da força, desconhecem o poder das sementes…(…) Não haverá parto

se a semente não for plantada, muito tempo antes… Não haverá borboletas se a vida

não passar por longas e silenciosas metamorfoses…’

(A magia dos gestos poéticos, Ed. Olho D’Água)

Fragmento do texto de Rubem Alves ”Gandhi”

em artigo publicado na Folha de S. Paulo,

Tendências e Debates, 31/01/2000

in: http://www.lendas2003.blogger.com.br/

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